Cecilia Meireles

Doce peso
Desta sonolência 
leve cadência 
De amor e desprezo

Lua mansa 
pedaço perdido
Do anel partido 
De alguma esperança

Grande estrela 
Toda desfolhada 
Na água parada
Para recebe-lá

Noite fria,
Sem desejo humano.
Brisa no oceano
Da melancolia

Rosto sério
Das ondas do mundo.
Boiam no fundo
Ramos de mistério.

(Doce peso
Desta sonolência…
Leve cadência
De amor e desprezo…)

***

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio tão amargo.

Eu não tinha estas mãos tão sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou retida
a minha face?

Viagem (1939)

**

Gosto da gota d’água que se equilibra
na folha rasa, tremendo ao vento.

Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra:
e ela resiste, no isolamento.

Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto:
pronto a cair, pronto a ficar – límpido e exato.

E a folha é um pequeno deserto
para a imensidade do ato.

**

Agora é como depois de um enterro.
Deixa-me neste leito, do tamanho do meu corpo,
junto à parede lisa, de onde brota um sono vazio.
A noite desmancha o pobre jogo das variedades.
Pousa a linha do horizonte entre as minhas pestanas,
e mergulha silêncio na última veia da esperança.
Deixa tocar esse grilo invisível
– mercúrio tremendo na palma da sombra –
deixa-o tocar a sua música, suficiente
para cortar todo o arabesco da memória…

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